Cistites Complexas em Cães e Gatos

CISTITES COMPLEXAS EM CÃES E GATOS: A ORIGEM METABÓLICA QUE A LITERATURA IGNOROU

Dr. Márcio Bernstein – Especialista em Nefrologia Veterinária
CEO da RENALVET – Centro de Nefrologia, Urologia e Hemodiálise Veterinária

RESUMO

A cistite crônica em cães e gatos tem sido sistematicamente classificada como idiopática, estéril, comportamental ou multifatorial. Termos amplamente difundidos como cistite intersticial, cistite idiopática felina, síndrome urológica felina (SUF), Síndrome de Pandora e cistite idiopática canina têm dominado o raciocínio clínico durante décadas. Entretanto, ao longo dos meus anos de atuação em nefrologia e urologia veterinária, especialmente na RENALVET, observei que esses rótulos não conseguem explicar a verdadeira fisiopatologia subjacente à inflamação vesical crônica.

Com base em avaliações seriadas da composição urinária, identifiquei que a hipercalciúria — primária ou secundária à disfunção tubular, particularmente à acidose tubular renal (ATR) — é o principal fator subjacente na maioria dos casos chamados de “cistite idiopática”.

Uma urina bioquimicamente inadequada, rica em cálcio ionizado e com pH persistentemente alterado (ácido ou alcalino), promove lesão direta ao urotélio, induzindo inflamação, cristalúria, dor e, frequentemente, infecções secundárias associadas à perda da integridade da mucosa.

Cistites, cálculos renais, ureterais, vesicais e uretrais, bem como episódios de obstrução urinária, representam manifestações periféricas de um distúrbio urinário metabólico prévio e negligenciado. Portanto, propõe-se o abandono do paradigma reducionista da “idiopatia” e a adoção do termo Cistite por Distúrbio Urinário Metabólico (CDUM).

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1. INTRODUÇÃO

Ao longo de décadas de prática clínica especializada em nefrologia e urologia veterinária, tornou-se evidente para mim que a construção conceitual da chamada “cistite idiopática” foi baseada muito mais na ausência de conhecimento do que na presença de explicações fisiológicas consistentes.

A medicina veterinária, por tradição e repetição, cristalizou modelos explicativos que não acompanharam a evolução das ciências biomédicas, particularmente no que diz respeito aos distúrbios tubulares renais, à bioquímica urinária e às alterações subclínicas que modulam a composição da urina.

Em outras palavras: enquanto a capacidade diagnóstica dos laboratórios evoluiu exponencialmente, o raciocínio clínico aplicado às doenças urinárias permaneceu ancorado em paradigmas ultrapassados.

Termos como cistite idiopática, síndrome urológica felina (SUF), Síndrome de Pandora, cistite intersticial, cistite estéril e cistite idiopática em cães e gatos que se tornaram, ao longo do tempo, recipientes conceituais utilizados para agrupar casos que não se encaixam no modelo binário tradicional de “bactéria presente / bactéria ausente”.

Esse modelo reducionista não apenas empobreceu o raciocínio clínico, como também desviou a atenção dos profissionais daquilo que realmente importa: a fisiologia urinária.

No fim das contas, a “idiopatia” transformou-se em uma convenção conveniente para encerrar investigações, quando deveria representar o ponto de partida para uma análise mais profunda.

2. A URINA COMO EXPRESSÃO DO TÚBULO RENAL

Costumo ensinar aos meus alunos e residentes que a urinálise é, na verdade, a “biópsia líquida do rim”. Essa afirmação, embora simples, sintetiza um conceito fisiológico profundo: tudo o que ocorre no túbulo renal — cada etapa de secreção, reabsorção, acidificação, modulação eletrolítica, ajuste de volume e equilíbrio ácido-base — acaba refletido na composição final da urina.

Não existe processo tubular que não deixe vestígios mensuráveis nesse fluido, que simultaneamente funciona como produto, reflexo e espelho da homeostase renal.

Entretanto, apesar desse extraordinário potencial diagnóstico, a urinálise continua sendo subutilizada por grande parte dos clínicos. Muitos ainda a interpretam superficialmente, limitando sua avaliação à identificação de bactérias, leucócitos ou hemácias, como se a única função da urina fosse revelar a presença de microrganismos.

Esse reducionismo transforma uma das mais poderosas ferramentas da nefrologia e da urologia em um simples exame microbiológico, ignorando sua capacidade de revelar distúrbios metabólicos profundos e sutis.

Para compreender as cistites complexas, os quadros recorrentes, as inflamações estéreis, as síndromes urinárias felinas e os casos classificados como “idiopáticos”, é essencial abandonar a visão simplificada da urina como mero resíduo metabólico.

A urina é um meio biológico ativo, químico e dinâmico, capaz de exercer impacto direto sobre o urotélio.

Sua composição — especialmente em relação ao pH, cálcio ionizado, citrato, densidade urinária e grau de saturação cristalina — determina se ela atuará como um fluido fisiológico ou como um agente irritante e inflamatório.

 

Esse reducionismo transforma uma das mais poderosas ferramentas da nefrologia e da urologia em um simples exame microbiológico, ignorando sua capacidade de revelar distúrbios metabólicos profundos e sutis.

Para compreender as cistites complexas, os quadros recorrentes, as inflamações estéreis, as síndromes urinárias felinas e os casos classificados como “idiopáticos”, é essencial abandonar a visão simplificada da urina como mero resíduo metabólico.

A urina é um meio biológico ativo, químico e dinâmico, capaz de exercer impacto direto sobre o urotélio.

Sua composição — especialmente em relação ao pH, cálcio ionizado, citrato, densidade urinária e grau de saturação cristalina — determina se ela atuará como um fluido fisiológico ou como um agente irritante e inflamatório.

Quando analisamos a urina com a profundidade que a fisiologia exige, observamos que ela se comporta como o verdadeiro relatório final do túbulo renal.

Alterações aparentemente discretas, como:

  • pequeno aumento do cálcio urinário;
  • discreta redução do citrato;
  • oscilações repetidas do pH;

produzem consequências clínicas reais.

Esses parâmetros indicam disfunções tubulares silenciosas, especialmente relacionadas ao manejo de íons hidrogênio, sódio, potássio e cálcio, que frequentemente passam despercebidas pelos marcadores tradicionais de função renal, como ureia e creatinina.

Isso explica por que tantos pacientes com acidose tubular renal, hipercalciúria ou distúrbios de acidificação apresentam exames sanguíneos aparentemente normais enquanto produzem uma urina metabolicamente agressiva.

É uma doença que se revela lentamente por meio de pequenas alterações do comportamento urinário.

3. ATR: A CAUSA SUBCLÍNICA MAIS IGNORADA

A acidose tubular renal (ATR), especialmente a forma distal tipo I, representa um dos distúrbios metabólicos mais frequentes e, paradoxalmente, um dos menos reconhecidos na rotina clínica de cães e gatos.

Trata-se de uma condição silenciosa, insidiosa e frequentemente subdiagnosticada porque altera profundamente a fisiologia urinária sem modificar os marcadores tradicionais de função renal avaliados na hematologia e na bioquímica sérica.

Como consequência, muitos pacientes convivem durante anos com uma doença tubular ativa, produzindo urina metabolicamente inadequada e inflamatória enquanto seus exames sanguíneos permanecem aparentemente normais.

O grande desafio da ATR reside justamente nisso:

Ela não aumenta ureia, creatinina ou fósforo nos estágios iniciais.

O clínico que depende exclusivamente desses parâmetros conclui, equivocadamente, que o rim está íntegro, quando na realidade o túbulo renal encontra-se funcionalmente comprometido.

É um erro semelhante ao de avaliar apenas um eletrocardiograma para diagnosticar insuficiência cardíaca.

São ferramentas úteis, mas insuficientes para detectar alterações fisiológicas mais sutis.

A ATR distal tipo I caracteriza-se por um defeito primário ou secundário na capacidade tubular de secretar íons hidrogênio (H⁺).

Quando o rim não consegue acidificar adequadamente a urina, o organismo mantém um estado crônico de acidose metabólica leve a moderada.

Essa acidose desencadeia uma complexa cascata de compensações sistêmicas que afetam:

  • os ossos;
  • os eletrólitos;
  • o metabolismo muscular;
  • e, principalmente, a composição final da urina.

Principais manifestações fisiológicas da ATR

  • pH urinário persistentemente alcalino;
  • incapacidade de formar urina ácida mesmo durante acidose sistêmica;
  • hipocalemia;
  • hipercalciúria secundária;
  • cristalúria inflamatória;
  • formação recorrente de cristais e urólitos;
  • cistite estéril recorrente.

É importante enfatizar que a ATR não constitui um fenômeno isolado.

Ela faz parte de um espectro de disfunções metabólicas que modificam profundamente o comportamento do urotélio.

Uma urina excessivamente alcalina, rica em cálcio ionizado e pobre em citrato funciona como um irritante bioquímico contínuo.

Esse ambiente inflamatório mantém o urotélio vulnerável, frágil e predisposto à colonização bacteriana secundária.

A relação entre ATR e hipercalciúria é direta, robusta e amplamente documentada na medicina humana e em ensaios veterinários.

A acidose crônica promove mobilização de cálcio ósseo como mecanismo tampão, ao mesmo tempo em que reduz a reabsorção tubular de cálcio.

O resultado é uma urina com excesso de cálcio ionizado, que precipita facilmente em ambientes alcalinos.

Em cães e gatos, a observação clínica é idêntica:

  • cristais de fosfato de cálcio;
  • estruvita estéril;

são marcadores clássicos de ATR subclínica.

Entretanto, o aspecto mais importante é frequentemente negligenciado:

A ATR altera a urina antes de alterar o sangue.

Isso significa que a urinálise seriada é o método mais eficiente para detectar precocemente o distúrbio.

Não é uma doença que aparece de repente.

É uma doença que se revela lentamente por meio de pequenas alterações do comportamento urinário.

 

4. INFECÇÃO SECUNDÁRIA: A PEÇA QUE FALTA NA INTERPRETAÇÃO

É fundamental compreender que a maioria dos casos classificados como cistite na rotina clínica não se origina de uma infecção bacteriana primária.

Essa talvez seja uma das maiores distorções conceituais presentes na literatura veterinária contemporânea.

Em uma grande proporção dos cães e gatos que apresentam episódios recorrentes de:

  • disúria;
  • hematúria;
  • estrangúria;
  • polaciúria;

a infecção não representa o evento inicial da cascata fisiopatológica.

Ela é, na verdade, uma consequência tardia de alterações prévias na composição urinária, especialmente:

  • hipercalciúria;
  • alterações persistentes do pH;
  • cristalúria inflamatória.

O erro histórico consiste em presumir que, diante de sinais urinários, as bactérias sejam necessariamente a causa.

Esse raciocínio ignora o fato de que a bexiga não existe isoladamente.

Ela está continuamente exposta a um fluido biologicamente ativo.

Quando esse fluido é quimicamente agressivo, o urotélio sofre lesões repetidas.

A lesão da barreira urotelial precede a entrada de microrganismos, cria portas de entrada para bactérias oportunistas e transforma uma cistite metabólica silenciosa em uma infecção clinicamente evidente.

O processo fisiopatológico ocorre em etapas bem definidas:

 

4.1 – Urina metabolicamente inadequada

  • rica em cálcio ionizado;
  • pH incompatível com a fisiologia tubular;
  • pobre em citrato;
  • frequentemente diluída.

 

4.2 – Agressão química crônica ao urotélio

O excesso de cálcio precipita, forma cristais, gera microlesões e desgasta a integridade epitelial.

 

4.3 – Perda da barreira urotelial

O glicocálice protetor torna-se irregular, a permeabilidade aumenta e a mucosa perde sua função defensiva.

 

 4.4 – Colonização bacteriana secundária

Microrganismos oportunistas oriundos do períneo ou da uretra distal aderem facilmente ao epitélio lesionado.

4.5 – Cistite infecciosa estabelecida

Agora há cultura positiva, sinais clínicos agudos e resposta variável aos antibióticos.

A ideia de que a infecção é o ponto de partida ignora a etapa central da CDUM:

A inflamação metabólica inicial.

  • Silenciosa.
  • Repetitiva.
  • Subdiagnosticada.

O impacto do pH urinário sobre a defesa vesical

Outro aspecto frequentemente ignorado é a influência do pH urinário sobre os mecanismos de defesa do urotélio.

Ph persistentemente ácido

  • aumenta a irritação química;
  • potencializa os efeitos dos cristais de oxalato de cálcio.
  • aumenta a irritação química;
  • potencializa os efeitos dos cristais de oxalato de cálcio.

Ph persistentemente alcalino

  • reduz a capacidade antimicrobiana natural da urina;
  • favorece a formação de fosfatos e estruvita;
  • aumenta a suscetibilidade à colonização bacteriana.

Portanto, o pH não é apenas um número. Ele é:

  • um marcador direto da função tubular;
  • um modulador biológico do ambiente urinário.

A falsa cura promovida pelos antibióticos

Outro erro frequente é interpretar a melhora clínica após antibióticos como prova de que a infecção era a causa primária.

Na realidade, muitas vezes ocorre apenas redução temporária da carga bacteriana.

A agressão metabólica permanece.

Consequentemente:

  • o urotélio continua sendo lesionado;
  • a cristalúria persiste;
  • a hipercalciúria permanece;
  • o pH continua alterado.

Sem corrigir a origem metabólica, a colonização bacteriana reaparece semanas ou meses depois.

Cria-se então a falsa impressão de infecções recorrentes.

Na verdade, o que recorre é a agressão metabólica.

A infecção é apenas uma consequência previsível.

5. CRÍTICA HONESTA À LITERATURA CLÁSSICA

5.1 – Joe Bartges — Onde a abordagem ambiental falhou

Joe Bartges é reconhecido mundialmente por suas contribuições às doenças do trato urinário inferior, especialmente em felinos.

Seu trabalho enfatizou:

  • fatores ambientais;
  • estresse;
  • enriquecimento ambiental;
  • manejo alimentar.

Contudo, existe um ponto cego importante em sua obra:

A ausência quase completa de discussão sobre:

  • hipercalciúria;
  • acidose tubular renal;
  • citrato urinário;
  • alterações persistentes do pH;
  • avaliação metabólica da urina.

Seu foco permaneceu concentrado em:

  • redução do estresse;
  • aumento da ingestão hídrica;
  • enriquecimento ambiental.

Entretanto, a possibilidade de que a urina seja um agente etiológico ativo recebeu pouca ou nenhuma atenção.

O impacto clínico dessa omissão foi significativo.

Uma geração inteira de veterinários passou a interpretar cistites recorrentes principalmente como problemas de manejo, deixando de investigar causas metabólicas.

5.2 – TONY BUFFINGTON E JODY WESTROPP — A SÍNDROME DE PANDORA

Tony Buffington e posteriormente Jody Westropp popularizaram o conceito de Síndrome de Pandora.

Segundo esse modelo, a cistite idiopática felina seria manifestação de um distúrbio sistêmico da resposta ao estresse.

O gato apresentaria:

  • hipersensibilidade neuroendócrina;
  • alterações autonômicas;
  • respostas exageradas ao ambiente.

O modelo tornou-se extremamente influente.

Entretanto, apresenta uma limitação fundamental:

Transforma observações comportamentais em explicações causais sem fundamentação na fisiologia urinária.

Os estudos de Buffington e Westropp abordam:

  • cortisol;
  • catecolaminas;
  • sistema nervoso autônomo;
  • percepção da dor;
  • fatores ambientais.

Mas não incluem:

  • UCa/UCr;
  • avaliação da carga iônica urinária;
  • investigação de ATR;
  • análise da relação cálcio urinário e inflamação;
  • citrato urinário.

Assim, atribuem a inflamação ao estresse sem considerar que a própria urina alterada possa ser a verdadeira causa.

No modelo fisiológico proposto:

o estresse é consequência da dor urinária crônica e não necessariamente sua causa.

 

5.3 – JOHN KRUGER — A ARMADILHA DO DIAGNÓSTICO POR EXCLUSÃO

John Kruger ajudou a consolidar o conceito de diagnóstico por exclusão.

Segundo esse modelo:

Após excluir:

  • infecção;
  • urólitos;
  • neoplasias;
  • anomalias anatômicas;

o clínico conclui que existe uma cistite idiopática.

O problema é que isso cria uma armadilha intelectual.

Uma vez excluídas as causas óbvias, presume-se que não exista causa identificável.

Na realidade, muitas vezes simplesmente não houve investigação metabólica.

Kruger não propôs avaliação rotineira de:

  • hipercalciúria;
  • ATR subclínica;
  • citrato urinário;
  • microcalcificações tubulares;
  • alterações da capacidade de concentração urinária.

Assim, sua definição de idiopatia pode representar não ausência de causa, mas ausência de investigação adequada.

5.4 – CARL OSBORNE E JODY LULICH — ESPECIALISTAS EM CÁLCULOS, MAS NÃO NA URINA

Carl Osborne e Jody Lulich revolucionaram o estudo da urolitíase veterinária.

Descreveram detalhadamente:

  • composição mineral dos cálculos;
  • mecanismos de formação;
  • protocolos de dissolução;
  • classificação dos urólitos.

Contudo, segundo o texto, concentraram grande parte de seus esforços no cálculo formado e menos na urina que o originou.

Estudaram profundamente:

  • estruvita;
  • oxalato;
  • urato;
  • cistina.

Mas não aprofundaram, com a mesma intensidade:

  • hipercalciúria persistente;
  • ATR subclínica;
  • deficiência de citrato;
  • lesões uroteliais precoces induzidas por cristais.

Apesar disso, são os autores clássicos que mais se aproximaram do conceito metabólico defendido pela CDUM.

 

5.5 – Ettinger & Feldman — A limitação dos grandes tratados e a perpetuação da visão binária “com bactéria / sem bactéria”

Ettinger & Feldman – Textbook of Veterinary Internal Medicine é provavelmente a obra mais influente da medicina interna veterinária. Sua importância histórica é incontestável e sua contribuição para a formação de milhares de clínicos é imensa.

Entretanto, quando analisamos os capítulos dedicados ao trato urinário inferior, observamos uma limitação importante: a manutenção de um modelo excessivamente simplificado.

O paradigma central continua sendo:

  • bactéria presente → cistite infecciosa;
  • bactéria ausente → cistite idiopática.

Esse modelo ignora a complexidade da bioquímica urinária e praticamente não explora:

  • a relação entre pH urinário e lesão urotelial;
  • a importância fisiológica do citrato;
  • a hipercalciúria como marcador metabólico primário;
  • a ATR como causa subdiagnosticada de cistite recorrente;
  • os mecanismos de cristalização inflamatória.

Embora o livro discuta extensamente:

  • glomerulopatias;
  • insuficiência renal;
  • neoplasias;
  • infecções urinárias;

há relativamente pouca atenção dedicada à função tubular e à acidificação urinária.

Consequentemente, perpetua-se a visão de que a inflamação vesical sem bactérias deve ser considerada idiopática.

 

5.6 – J. Scott Weese — Excelência em antimicrobianos, mas sem enfoque metabólico

  1. Scott Weese é uma das maiores autoridades mundiais em:
  • uso racional de antibióticos;
  • medicina baseada em evidências;
  • infecções urinárias;
  • resistência bacteriana.

Seu trabalho revolucionou a abordagem das infecções urinárias ao defender:

  • redução do uso empírico de antibióticos;
  • realização de cultura e antibiograma;
  • combate à resistência antimicrobiana;
  • protocolos mais criteriosos para infecções complicadas.

Contudo, segundo a crítica apresentada neste texto, Weese interpreta a cistite predominantemente através de uma lente microbiológica.

Sua obra praticamente não aborda:

  • hipercalciúria;
  • acidose tubular renal;
  • cristalúria metabólica;
  • supersaturação urinária;
  • citrato urinário.

Quando a cultura é negativa, o foco deixa de ser a infecção, mas não se desloca para a investigação metabólica.

Assim, permanece uma lacuna explicativa para os pacientes que apresentam:

  • dor;
  • hematúria;
  • cristalúria;
  • inflamação vesical;

na ausência de bactérias.

6. PROPOSTA: CDUM (UMDC) — CISTITE ASSOCIADA A DISTÚRBIO URINÁRIO METABÓLICO

O conceito de Cistite Associada a Distúrbio Urinário Metabólico (CDUM) surge da observação clínica de que grande parte das inflamações vesicais classificadas como idiopáticas apresenta alterações urinárias objetivas compatíveis com distúrbios tubulares e metabólicos.

 

A proposta baseia-se em três pilares fundamentais:

6.1 – A urina é um agente etiológico ativo

A urina não deve ser vista apenas como produto de excreção.

Ela pode atuar diretamente como agente agressor do urotélio.

 

6.2 – Hipercalciúria e alterações de pH são eventos primários

Os principais eventos fisiopatológicos mensuráveis seriam:

  • hipercalciúria;
  • pH inadequado;
  • cristalúria incompatível com o ambiente urinário;
  • deficiência de citrato.

 

6.3 – A infecção frequentemente é secundária

Segundo o modelo:

  • primeiro ocorre lesão metabólica;
  • depois ocorre lesão urotelial;
  • posteriormente acontece colonização bacteriana.

Assim, a infecção seria consequência e não causa primária.

 

Novo paradigma

A proposta central pode ser resumida da seguinte forma:

A cistite crônica não é uma doença primária da bexiga.

Ela representa uma manifestação clínica de disfunção tubular renal.

Sob essa ótica, o foco diagnóstico deixa de ser a bexiga e passa a ser o rim, especialmente seus mecanismos tubulares de acidificação, reabsorção de cálcio e regulação urinária.

Esta imagem busca capturar a essência da CDUM:

Não apenas uma infecção, mas uma “tempestade química” e uma inflamação metabólica que ocorre de forma silenciosa e repetitiva dentro da bexiga.

7. PROTOCOLO DIAGNÓSTICO PROPOSTO PARA CDUM

O protocolo sugerido inclui:

7.1 – Avaliação urinária seriada

  • pH urinário;
  • densidade urinária;
  • cristalúria;
  • cilindrúria.

 

7.2 – Relação cálcio/creatinina urinária (UCa/UCr)

Considerada pelo autor o marcador mais sensível de hipercalciúria.

 

7.3 – Citrato urinário

Quando disponível.

 

7.4 – Hemogasometria e eletrólitos

Buscando:

  • acidose metabólica;(quando em ATR, com anion gap normal)
  • hipocalemia;
  • alterações compatíveis com ATR.

 

7.5 – Urocultura

Interpretada como consequência do processo, e não como ponto inicial da investigação.

 

7.6 – Resposta terapêutica

A melhora clínica após correção metabólica serviria como evidência adicional de causalidade.

 

TABELA 1 — Critérios Diagnósticos Fundamentais da CDUM

Critério

Padrão sugestivo

Urocultura

Negativa ou secundariamente positiva

Relação UCa/UCr

Elevada

pH urinário

Persistentemente ácido (<6) ou alcalino (>7)

Densidade urinária

Baixa

Cristalúria

Associada à inflamação

Resposta terapêutica

Melhora após correção metabólica

 

TABELA 2 — Alterações Metabólicas Associadas

Alteração

Consequência

Hipercalciúria

     Microabrasões uroteliais

Citrato reduzido

     Maior cristalização

pH incompatível

     Formação anormal de cristais

Densidade baixa

     Redução da proteção vesical

Ausência inicial de bacteriúria

     Inflamação precede infecção

 

TABELA 3 — Indicadores Clínicos de ATR

  • pH urinário persistentemente elevado;
  • cristais incompatíveis com o pH observado;
  • hipocalemia;
  • histórico de urólitos recorrentes;
  • resposta inadequada a dietas urinárias convencionais.

8. HIPERCALCIÚRIA E PROGRESSÃO PARA DOENÇA RENAL CRÔNICA

Segundo o modelo proposto, a hipercalciúria não seria apenas um problema vesical.

Ela representaria também um fator de progressão para lesão renal.

 

Os principais mecanismos descritos são:

8.1 – Estresse oxidativo tubular

O excesso de cálcio intracelular aumenta a produção de radicais livres, levando a:

  • lesão mitocondrial;
  • dano proteico;
  • perda progressiva da função tubular.

 

8.2 – Apoptose tubular

O cálcio intracelular atua como gatilho para morte celular programada, principalmente em:

  • túbulo distal;
  • ductos coletores.

 

8.3 – Microcalcificações intratubulares

Pequenos depósitos de cálcio podem:

  • obstruir túbulos;
  • induzir inflamação;
  • promover fibrose.

Com o passar do tempo, esses mecanismos poderiam contribuir para a progressão da doença renal crônica.

9. CASOS CLÍNICOS

Ao longo dos anos na RENALVET, diversos pacientes inicialmente diagnosticados com:

  • cistite idiopática;
  • síndrome urológica felina;
  • cistite estéril recorrente;
  • cistite intersticial;
  • infecção urinária recorrente;

foram submetidos a uma investigação metabólica detalhada.

Segundo o autor, a maioria apresentava alterações urinárias repetitivas e consistentes capazes de explicar a inflamação vesical de forma mais objetiva do que os modelos tradicionais.

 

9.1 – Caso 1 — Gato, 4 anos, diagnosticado como SUF recorrente

Histórico

  • hematúria recorrente;
  • disúria;
  • vocalização ao urinar;
  • culturas urinárias repetidamente negativas.

Recebeu anteriormente:

  • analgésicos;
  • antiespasmódicos;
  • enriquecimento ambiental.

Apresentava melhora parcial, seguida de recidiva entre 30 e 60 dias.

 

Avaliação inicial

  • pH urinário: 7,5
  • densidade urinária: 1,020
  • relação Uca/Ucr: 0,056
  • cristais de fosfato de cálcio
  • citrato urinário reduzido
  • ausência de bactérias
  • ânion gap urinário: +30
  • hemogasometria: acidemia leve

 

Interpretação

O padrão foi considerado compatível com:

  • hipercalciúria importante;
  • ATR distal subclínica.

 

Tratamento

  • citrato de potássio;
  • hidroclorotiazida;
  • ajuste dietético;
  • modulação do pH urinário.

 

Evolução

Após a correção metabólica:

  • pH urinário entre 6,0 e 6,4;
  • Uca/Ucr caiu para 0,014;
  • desaparecimento completo dos episódios clínicos.

 

Acompanhamento:

18 meses sem recidiva.

 

 

9.2 – Caso 2 — Cão, 7 anos, considerado portador de cistite infecciosa recorrente

Histórico

Cadela sem raça definida.

Três episódios prévios de cistite tratados com antibióticos.

Culturas anteriores demonstraram crescimento discreto de Escherichia coli.

Mesmo após tratamento, os sinais retornavam em aproximadamente 45 dias.

 

Avaliação metabólica

  • UCa/UCr: 0,037
  • pH urinário: 5,8
  • bicarbonato: 16
  • pH sanguíneo: 7,28
  • cristais de oxalato de cálcio
  • densidade urinária: 1,018
  • citrato urinário reduzido

 

Interpretação

O raciocínio proposto foi:

Hipercalciúria → lesão urotelial → colonização bacteriana secundária.

Portanto, as infecções seriam consequência do ambiente urinário alterado.

 

Tratamento

  • correção metabólica;
  • hidratação orientada;
  • ajuste dietético.

 

Evolução

Permaneceu:

 

11 meses sem novos episódios.

Os antibióticos deixaram de ser necessários.

 

 

9.3 – Caso 3 — Gato, 9 anos, rotulado durante anos como portador de cistite intersticial

Histórico

Tratado em diversas clínicas com:

  • anti-inflamatórios;
  • opioides;
  • enriquecimento ambiental.

O tutor já acreditava tratar-se de um problema emocional.

 

Avaliações seriadas

Foram observados:

  • pH alternando entre ácido e alcalino;
  • hipercalciúria intermitente;
  • cristais variando conforme o pH;
  • proteinúria tubular discreta;
  • culturas geralmente negativas.

 

Interpretação

O paciente apresentava:

  • instabilidade metabólica urinária;
  • provável disfunção tubular leve;
  • agravamento por dietas excessivamente acidificantes.

 

Tratamento

  • suspensão da acidificação crônica;
  • citrato;
  • hidroclorotiazida;
  • aumento da ingestão hídrica.

 

Evolução

Resolução clínica em poucas semanas.

 

Considerações Gerais dos Casos

Os três casos sustentam quatro observações centrais:

  1. A urina metabolicamente inadequada pode induzir inflamação vesical diretamente.
  2. A infecção frequentemente surge como consequência.
  3. Parâmetros como:
    • UCa/UCr;
    • citrato urinário;
    • ânion gap urinário;
    • pH seriado;
    • densidade urinária;

Revelam padrões ignorados pelos modelos tradicionais.

  1. O modelo CDUM seria mais reproduzível e fisiologicamente consistente.

10. DIETA COMO FATOR AGRAVANTE

A dieta exerce influência direta sobre:

  • pH urinário;
  • excreção de cálcio;
  • disponibilidade de citrato;
  • saturação mineral urinária.

Entretanto, segundo o autor, a literatura frequentemente simplifica excessivamente essa questão.

 

  1. 1 – Dietas acidificantes

Amplamente utilizadas para prevenção de estruvita.

Segundo o texto, podem ser problemáticas em pacientes com ATR distal com dificuldades de acidificar a urina(menor excreção de íons H+).

Ao aumentar a carga ácida:

  • intensificam a acidose;
  • promovem mobilização de cálcio ósseo;
  • aumentam a excreção urinária de cálcio.

Consequentemente podem favorecer:

  • hipercalciúria;
  • cristalúria;
  • inflamação vesical.

 

10.2 – Dietas alcalinizantes

Também podem ser prejudiciais quando utilizadas indiscriminadamente.

Em pacientes com defeitos de acidificação:

  • elevam ainda mais o pH;
  • favorecem precipitação de fosfato de cálcio;
  • facilitam colonização bacteriana.

 

10.3 Conclusão Dietética

A escolha da dieta deve ser baseada em:

  • fisiologia renal;
  • UCa/UCr;
  • Diagnostico de ATR e tipo de ATR
  • citrato urinário;
  • pH seriado;
  • eletrólitos;
  • histórico de cristalúria.

Não apenas no cristal observado em uma única urinálise.

11. DISCUSSÃO

O autor propõe uma revisão crítica do conceito tradicional de cistite idiopática.

Segundo sua análise:

Autores como:

  • Tony Buffington;
  • Joe Bartges;
  • Jody Westropp;

contribuíram enormemente para a compreensão clínica da doença.

Entretanto, teriam dado ênfase excessiva a:

  • estresse;
  • fatores comportamentais;
  • ambiente.

E atenção insuficiente a:

  • hipercalciúria;
  • ATR;
  • citrato;
  • saturação urinária;
  • fisiologia tubular.

A proposta central é que:

A urina não é um elemento passivo.

Ela possui propriedades químicas capazes de produzir:

  • dor;
  • edema;
  • inflamação;
  • cristalização;
  • lesão epitelial.

Quando há:

  • hipercalciúria;
  • acidose tubular;
  • alterações persistentes do pH;

a bexiga torna-se o órgão-alvo de um processo iniciado no túbulo renal.

 

11.1 – EVIDÊNCIA CLÍNICA LONGITUDINAL

Casuística

Entre 2014 e 2024 foram avaliados:

1.200 cães e gatos

com:

  • cistite recorrente;
  • infecções urinárias recorrentes;
  • urolitíase.

Pacientes IRIS IV foram excluídos.

 

11.2 – Investigação realizada

Todos passaram por:

  • relação cálcio/creatinina urinária;
  • avaliação do pH urinário;
  • Avaliação de ATR
  • hemogasometria;
  • urinálise completa;
  • ânion gap urinário;
  • cultura bacteriana quando indicada.

 

11.3 – Resultados observacionais

Hipercalciúria foi identificada em:

82% dos casos.

 

Entre esses pacientes:

aproximadamente 60%

apresentavam alterações compatíveis com defeitos de acidificação tubular distal.

 

Segundo o autor, esses achados sugerem que:

  • hipercalciúria;
  • ATR;
  • alterações tubulares metabólicas

podem desempenhar papel etiológico muito mais importante do que atualmente reconhecido.

12. CONCLUSÃO

A análise integrada dos casos clínicos, dos dados laboratoriais e da fisiopatologia comparada entre medicina humana e veterinária levou o autor à seguinte conclusão:

A maioria dos casos rotulados como cistite idiopática provavelmente não é verdadeiramente idiopática.

O mecanismo primário seria um distúrbio metabólico urinário, especialmente:

  • hipercalciúria;
  • ATR;
  • alterações persistentes do pH;
  • deficiência de citrato.

A urina deixa de ser um fluido biologicamente neutro e passa a atuar como um agente agressor do urotélio.

Consequentemente:

  • a inflamação vesical surge primeiro;
  • a infecção bacteriana ocorre depois.

O conceito de CDUM (Cistite Associada a Distúrbio Urinário Metabólico) é proposto como um novo paradigma integrador, no qual a saúde da bexiga depende diretamente da composição da urina e, portanto, da função tubular renal.

A conclusão final do trabalho é:

“A urina inflama a bexiga.”

E, portanto, para compreender as cistites complexas, o clínico deve direcionar sua atenção menos para a bexiga e mais para a fisiologia do túbulo renal.

13. REFERÊNCIAS

  1. Westropp, J.L.; Buffington, C.A.T. Feline idiopathic cystitis: current understanding of pathophysiology and management. Vet Clin North Am Small Anim Pract. 2004;34(4):1043–1055. DOI: 10.1016/j.cvsm.2004.03.002.
  2. Buffington, C.A.T. Idiopathic cystitis in domestic cats — beyond the lower urinary tract. J Vet Intern Med. 2011;25(4):784–796. DOI: 10.1111/j.1939-1676.2011.0732.x. (Text available in PMC).
  3. Kruger, J.M. Changing paradigms of feline idiopathic cystitis. Vet Clin North Am Small Anim Pract. 2009. (Review article — see abstract). PubMed ID: 19038648.
  4. Lulich, J.P.; Osborne, C.A.; et al. Changing paradigms in the diagnosis of urolithiasis. (Review article on diagnostic approaches and paradigms in urolithiasis). 2009. [See source for full publication details].
  5. Bartges, J.W. Congenital diseases of the lower urinary tract. Vet Clin North Am Small Anim Pract. 2015. (Section on congenital diseases of the lower urinary tract — useful for anatomical/diagnostic aspects).
  6. Ettinger, S.J.; Feldman, E.C.; Côté, E. (eds.) Ettinger’s Textbook of Veterinary Internal Medicine: Diseases of the Dog and Cat. 8th/9th eds. Elsevier. (Chapters on nephrology, urology, and lower urinary tract disease). 2017 (8th ed.); 2023 (9th ed.).
  7. Weese, J.S.; Giguère, S.; Guardabassi, L.; et al. Antimicrobial use guidelines for treatment of urinary tract disease in dogs and cats (ISCAID guidelines). J Vet Intern Med. 2011. (Guideline; text available in PMC).
  8. Osborne, C.A.; Lulich, J.P.; et al. (Studies on canine and feline urolithiasis — prevention, diagnosis, and management). Examples include Lulich/Osborne reviews on risk factors for urinary stones and preventive strategies (see 2009 review).
  9. Khan, S.R. Crystal-induced inflammation of the kidneys. Kidney Int. 2004. (Review on inflammatory response to renal crystals). PubMed ID available.
  10. Rodríguez-Soriano, J. Renal tubular acidosis: the clinical entity. J Am Soc Nephrol. 2002;13(8):2160–2170. DOI: 10.1097/01.ASN.0000023430.92674.E5. (Classic review on RTA).
  11. Mulay, S.R.; et al. Calcium oxalate crystals induce renal inflammation by NLRP3 activation. J Clin Invest. 2013;123(4). (Experimental study on crystal-induced inflammation mechanisms).
  12. StatPearls (Leslie S.W.). Hypercalciuria. StatPearls [Internet]. 2024. (Updated clinical review on hypercalciuria — human context, mechanisms, and implications).
  13. Lulich, J.P.; Osborne, C.A.; et al. Changing paradigms in the diagnosis of urolithiasis. Journal/Review (see source) — article useful for diagnostic practices in urinalysis and urolithiasis.

Dr. Márcio Bernstein, Médico-Veterinário

Especialista em Nefrologia e Urologia Veterinária

Fundador e Diretor Científico da RENALVET – Centro de Nefrologia, Urologia e Hemodiálise Veterinária

Pesquisador em Fisiologia Renal, Distúrbios Tubulares e Doenças Metabólicas do Trato Urinário

Autor do Paradigma da Cistite Associada a Distúrbios Metabólicos Urinários (CDUM/UMDC)

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